sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

EM BUSCA DA FEIÇÃO REAL

 

“Era uma vez um castelo numa densa floresta. Lá viviam três pessoas cujos rostos foram roubados pela Bruxa Sombria. O menino usava uma máscara com um sorriso estranho. Havia uma princesa, que era agitada, mas vazia por dentro, e um homem, que estava preso em uma caixa. Não conseguiam fazer expressões porque suas feições tinham sido roubadas. Não entendiam os sentimentos um do outro, então sempre se desentendiam e brigavam.

 O Homem Caixa falou: ‘Se quisermos parar de brigar e encontrar a felicidade, temos que recuperar nossos rostos roubados’. Eles entraram em sua van e começaram a jornada em busca de seus rostos. Um dia, se depararam com uma mamãe raposa que chorava, debruçada sobre a neve. O Menino Mascarado perguntou à mamãe raposa: ‘Senhora, por que está chorando?’ ‘Bem, eu vim procurar comida, mas meu bebê caiu das minhas costas em algum lugar na neve!’ As lágrimas da mamãe raposa já haviam secado. Ela gemia e batia no peito. Quando o Menino Mascarado viu aquilo, lágrimas quentes jorraram de seus olhos. A neve começou a derreter rapidamente, e a raposa bebê, congelada sob a neve, logo apareceu.

Os três continuaram sua jornada. Logo se depararam com um palhaço que dançava pelado em um campo de flores espinhosas. A Princesa Apática perguntou: ‘Por que dança com tanto vigor, sabendo que será espetado?’ ‘Sinto que este é o único jeito de fazer as pessoas me olharem. Mas está doendo, e ninguém me olha’. Respondeu. A Princesa Apática entrou no campo de flores espinhosas e começou a dançar com o palhaço. ‘Sou fria como o metal, então os espinhos não vão me ferir’. Quando ela começou a saltitar e dançar, barulhos metálicos começaram a ecoar de seu corpo vazio. Ao ouvir aquele som as pessoas correram para lá. A multidão assistiu àquela dança e os aplaudiu.

 Naquele momento eles começaram uma nova jornada para encontrar seus rostos roubados, e a malvada Bruxa Sombria voltou a aparecer para eles. Ela sequestrou o Menino Mascarado, que chorou pela mamãe raposa, e a Princesa Apática que dançou com o Palhaço. ‘Vocês dois nunca encontrarão seus rostos felizes’. Depois de amaldiçoá-los, ela os trancou em um túnel escuro.

O Homem Caixa encontrou o túnel alguns dias depois, mas a entrada era estreita, e ele não conseguia passar. ‘O que eu faço? Preciso tirar esta caixa da cabeça para entrar no túnel’. Então, a voz do Menino Mascarado o alcançou de dentro do túnel. ‘Senhor, não se preocupe conosco. Fuja para longe. A Bruxa Sombria logo voltará. No entanto, o Homem Caixa reuniu coragem para tirar a caixa da cabeça. Ele entrou no túnel e salvou o Menino Mascarado e a Princesa Apática.

Ao escapar do túnel escuro, os dois viram o rosto do homem coberto de pó e sujeira em vez da caixa e começaram a rir. Eles se acabaram de tanto rir. Enquanto riam sem parar, a máscara do Menino Mascarado caiu de repente. A lata que envolvia o corpo da Princesa Apática também caiu e retiniu. ‘Eu gosto dela’, o Homem Caixa, agora fora da caixa disse sorrindo ao vê-los reencontrar seus verdadeiros rostos... Feliz. Ele está feliz. O que a Bruxa Sombria tinha roubado deles não eram seus rostos de verdade, mas sua coragem de encontrar a felicidade.”

Em busca da feição real é o décimo sexto episódio da série Tudo bem não ser normal. Neste último capítulo da trama é apresentada a história do novo livro da autora Ko Moo- yeong. Nessa nova obra de literatura, a autora resume a história vivida com seus novos amigos, que se tornaram a família dela.

“O que a Bruxa Sombria tinha roubado deles não eram seus rostos de verdade, mas sua coragem de encontrar a felicidade”. O que precisamos para alcançar o que tanto sonhamos é coragem. Às vezes nos prendemos no que é externo, “nossos rostos”, mas o que não está funcionando bem é o que vem de dentro.  O que nos motiva, a nossa “coragem” é que precisa ser resgatada. É importante conseguirmos enxergar, de verdade, o que tem nos atrapalhado de encontrar a felicidade.  

 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

UM CONTO DE DOIS IRMÃOS

 

“Há muito tempo... Havia dois irmãos pobres que se amavam muito. Um belo dia, na época da colheita, os dois colheram arroz. O mais velho não queria que o caçula ficasse sem arroz, então pegou um saco de arroz à noite e deixou em frente à casa do caçula. No mesmo dia, o caçula também pegou um saco de arroz e colocou em frente à casa do mais velho, pensando que ele precisaria, pois tinha uma família grande. No dia seguinte, quando acordaram ambos perceberam que ainda tinham a mesma quantidade de arroz de antes. Os dois irmãos acharam isso estranho, então deixaram outro saco de arroz na noite seguinte em frente à casa do outro. Isso continuou acontecendo por dias. Moral da história: Irmãos que se amam muito, devem morar juntos, para que não façam trabalhos inúteis.”

O décimo quinto capítulo da série Tudo bem não ser normal conta a história inventada por um dos personagens intitulada Um Conto de Dois Irmãos. Essa narrativa apresenta a preocupação que muitas vezes temos pelos outros. Nos esforçamos para fazer algo para o outro sem levar em conta se ele é capaz de fazer sozinho. Nesse conto um se esforça para atender às necessidades do outro e acabam se envolvendo em “trabalhos inúteis”.

Ao acabar de contar a história é dito: “Não vamos fazer nada que desperdice nosso tempo”. Quando entramos em acordo com aqueles com quem convivemos podemos “dividir tarefas” e ganhar tempo para fazer o que mais gostamos. Não só tarefas práticas, quando conhecemos bem ao outro conseguimos dividir todo tipo de atribuições que possuímos, como demandas psicológicas, físicas, espirituais...

Nesse episódio, Ko Moo- yeong tenta se afastar dos amigos ao descobrir uma situação do passado causada pela mãe dela. Gang-tae insiste em ficar com ela e, de forma surpreendente, expressa seus sentimentos de forma aberta diferente do habitual. Ele chega a segui-la e grita para todos ouvirem: ‘Eu te amo’. É interessante esse desenrolar da trama já que o personagem, até então, reprimia e escondia o máximo possível os sentimentos dele. É bonito perceber que ele foi sensível à demanda dela em ser amada e a atendeu dizendo o que ela precisava ouvir.

 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A MÃO E O TAMBORIL

 

 

“Era uma vez uma linda bebezinha que nasceu em uma família rica. Ela era perfeita como as magnólias. Sua mãe a amava tanto, que jurou fazer de tudo por ela. Prometeu a ela até o Sol e a Lua. Quando a bebê começou a comer, a mãe ficou empolgada. ‘Minha filhinha. Vou dar tudo o que você quiser comer. Abra bem a boca. Assim’. Quando ela começou a andar, a mãe veio correndo. ‘Minha filhinha. Eu te carrego. Venha. Suba nas minhas costas’. Depois de criar a bebê, sempre provendo tudo de que ela precisava, a mãe disse: ‘Minha querida filha. Agora preciso descansar um pouco. Você pode me trazer comida?’ A menina respondeu: ‘Mãe, eu não tenho mãos. Eu nunca as usei, então elas sumiram’. ‘Então, filhinha, pode me carregar nas costas? Minhas pernas doem’. E a menina respondeu: ‘Mãe, eu não tenho pés. Você sempre me carregou nas costas, então nunca pisei no chão. Mas, em compensação, tenho uma boca enorme’. Então ela abriu sua boca gigantesca. Em seguida, com raiva, a mãe gritou: ‘Você nunca foi minha bebê perfeita. Está mais para um tamboril. Só sabe comer o que ofereço. Não faz nada por conta própria. É um fracasso!’ Então a mãe jogou a bebê no mar longínquo. Desde aquele dia, dizem que os pescadores ouvem o choro de um bebê vindo do mar em dias tenebrosos de ventania. ‘Mamãe. Mamãe. O que eu fiz de errado? Por favor, venha me buscar. Por favor... volte...para me buscar’.    

Essa história contada no décimo quarto capítulo da série Tudo bem não ser normal nos desperta para uma reflexão sobre a superproteção. Fazer tudo para os filhos com a intenção de ser prestativo, amoroso, dedicado, sem ponderar que eles são capazes de fazer por si mesmos, pode acarretar consequências desastrosas. No futuro, assim como a bebezinha da história podem se sentir “sem mão” e “sem pés” por não conseguirem resolver sozinhos suas próprias questões e tarefas. Podemos ampliar nosso olhar para outras relações além dos filhos, em todos os nossos relacionamentos estamos sujeitos a fazer pelo outro aquilo que ele mesmo poderia fazer. Devemos ser sensíveis para perceber até onde vão nossas obrigações e onde começa a dos outros. Fazer tudo pelos outros não é saudável para si mesmo.

O episódio décimo quarto da série trata da relação de Ko Moo- yeong com a mãe dela, a qual foi uma mãe superprotetora. Descobre-se que a mãe que pensavam estar morta estava viva. Cria-se um clima de suspense sobre que maldade poderia ser feita pela mãe da personagem nesse episódio.

 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O PAI DAS DUAS IRMÃS

 

“Tem uma história que eu odiava quando era criança. O Conto das Duas Irmãs. Eu odiava o pai na história. Mesmo com as duas filhas sendo maltratadas pela madrasta e ficando à beira da morte, ele fez vista grossa para tudo. Aquele que negligencia e faz vista grossa ao abuso é pior do que a pessoa que abusa. As duas irmãs foram praticamente mortas pelo pai.”

O foco do décimo terceiro capítulo da série Tudo bem não ser normal está na família e relações familiares.

 Ko Moo- yeong tem a ideia de tirar uma foto de família com Gang-tae e o irmão dele, os quais estão morando junto com ela no castelo amaldiçoado. Moram juntos e ela concebe que para ritualizar o fato de serem uma família precisariam de uma foto em família que ficaria exposta na casa. Simbolicamente tem realmente uma importância muito bonita a representação em fotografia daquilo ou daqueles que consideramos admiráveis.

Uma questão árdua abordada nesse episódio é o caso de uma paciente do hospital psiquiátrico com múltiplas personalidades. Revela-se que ela era maltratada pela mãe na infância e o pai não interferia para defendê-la. Como forma de “proteção” desenvolveu o transtorno de múltiplas personalidades. O pai vai visitá-la, entretanto ela tem pavor em encontrá-lo. Gang-tae, o enfermeiro, propõe protegê-la quando o pai se aproxima para que ela possa dizer a ele o que a estava sufocando.

 “Aquele que negligencia e faz vista grossa ao abuso é pior do que a pessoa que abusa”. Essa frase dita no conto narrado no episódio nos leva a refletir sobre algo muito sério: o abuso. O que é colocado em choque é a falta de ação de quem sabe sobre um abuso. Ser cúmplice de algo tão sério e ficar sem atitude. É nossa responsabilidade expor, denunciar, trazer à luz os casos que conhecemos para que sejam solucionados. Não devemos nos calar e ser pior que a pessoa que abusa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

ROMEU E JULIETA

 

“Parecemos Romeu e Julieta. Tem razão. Os inimigos mortais que nunca deviam ter se conhecido. Não. Eles eram feitos uma para o outro. Foi um destino trágico”.

O décimo segundo capítulo da série Tudo bem não ser normal é Romeu e Julieta. Um romance que envolve problemas entre famílias e que termina de forma trágica. Somos mais apenas que nossa história que escolhemos escrever. Trazemos em nossas vidas, sem perceber muitas vezes, traços de nossos familiares. A família é uma instituição que nos educa e nos molda às suas maneiras. Sim, somos livres e quando adultos fazemos de forma livre nossas escolhas, mas nada exclui a base que a família plantou em nós.

Gang-tae, neste episódio, descobre algo sobre a família de Ko Moo- yeong que o deixa estarrecido. Ele fica muito triste e desesperado. Indaga que estava começando a ter prazer em viver, e de repente, ao descobrir algo tudo desmorona.

A família tem um grande poder e influência sobre nós, entretanto não pode ser uma amarra para nossos planos e decisões. Cada um, enquanto adulto, decide os caminhos que irá seguir.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

O PATINHO FEIO

 

“Conhece a história do Patinho Feio? Sim. Os outros patos são maus com o patinho feio. Fazem bullying com ele porque ele é diferente. Então ele fica muito sozinho e abandona a família, né? O que acha que teria acontecido se a mãe tivesse dado muito amor ao patinho feio? Ele não teria ido embora. Se um adulto acolher os filhotes, os patos e os cisnes podem conviver juntos numa boa.”

O décimo primeiro capítulo da série Tudo bem não ser normal intitulado O Patinho Feio nos leva mais uma vez a refletir sobre o diferente. Quem é diferente deve ser excluído? Deve viver separado? Acredito que não. Conviver com todos amplia nossa percepção de mundo e nossa sensibilidade. O outro com suas diferenças acrescenta muito a minha vida. Excluir, separar, isolar, nada disso deveria fazer parte das nossas opções de ação.

A pergunta feita por um dos personagens em certo momento desse episódio também é uma boa dica para reflexão: “Você é um adulto que acolhe as pessoas?”

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

A MENINA E O LOBO

 

“O menino pastor mentia o tempo todo. Ele vivia dizendo para os aldeões que um lobo tinha aparecido. Sabe por que o menino enganava os aldeões? Porque estava solitário. Ele fazia aquilo porque se sentia solitário nas montanhas. O menino pastor mentia porque estava solitário. Mas, quando um lobo apareceu de verdade, ninguém foi ajudá-lo. Se uma pessoa sequer tivesse acreditado e ido ajudá-lo, o menino não teria morrido.”

O décimo capítulo da série Tudo bem não ser normal nos apresenta a história A menina e o lobo. Assim como em outros episódios a história contada conversa bem com a trama do episódio. A mentira foi contada por Gang-tae ao seu irmão mais velho. Gang-tae saiu para um passeio com Ko Moo- yeong e dormiram fora por uma noite. Gang-tae havia dito ao irmão que havia saído sozinho e ele acabou descobrindo a verdade. Ao descobrir a verdade o irmão mais velho teve um “surto” nervoso. Lembrou de coisas do passado e acabou um bom tempo magoado com o irmão. Foi preciso medicá-lo e deixá-lo um tempo no hospital psiquiátrico para se recuperar.

A consequência da mentira é apresentada de maneira muito forte no episódio. Pensar nos efeitos que a nossa mentira pode causar no outro é nosso dever em nossas relações cotidianas. Bem próximo ao mentir está o omitir. Omitir pode ser ainda mais complicado já que o outro não recebe nenhuma satisfação. Apenas se esconde algo. Às vezes se esconde algo querendo proteger ao outro, é necessário medirmos então, se essa “proteção” dada é melhor que a verdade a ser dita.

Uma frase dita nesse episódio boa para finalizar e ampliar nossa reflexão: “Mau é aquele que não acredita em nada que os outros dizem.”

 

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

O REI COM ORELHAS DE BURRO

 

“Um homem entra na floresta de bambu e grita: ‘O rei tem orelhas de burro!’ Isso mesmo. Se você guardar um segredo, vai acabar se sentindo sufocado. Precisa contar a alguém para aliviar o estresse.”

O nono capítulo da série Tudo bem não ser normal traz essa breve “lição” ao comentar sobre a história O Rei com orelhas de burro. Guardar um segredo nos faria sentir sufocados, logo existe a necessidade de contar para aliviar. Isso me lembra o processo terapêutico em que falamos com um analista em busca da ‘cura’ de algo que nos incomoda. Realmente, percebe-se esse falar como algo que nos trará benefícios. Obviamente, o falar com alguém capacitado a nos ouvir. Precisamos ser cautelosos com nosso falar, já que nem todos estão capacitados para a escuta.

Em um outro momento do episódio é dita a seguinte frase: “O amor é questão de paciência.” Com certeza paciência é elemento fundamental em nossos relacionamentos. Relacionamentos amorosos, com amigos, familiares e com todos que amamos. A paciência nos faz entender as razões do outro e não sermos precipitados em julgamentos. Paciência para entender o outro e nos entender.

Fiquei curiosa sobre a história do rei com orelhas de burro, não a conhecia e encontrei no site Recanto das Letras:

O REI QUE TINHA ORELHAS DE BURRO

Num reino muito distante

Na Frigias, lá no oriente,

Apolo, em um rompante,

Com Midas foi inclemente.

 

Foi depois de uma disputa

De flautas com Apolo e Pan

Midas que estava na escuta

Disse de quem era fã.

 

Apolo, nada contente,

Com a preferência de Midas

Deu-lhe ali em um repente

Orelhas como espigas.

 

Eram orelhas de burro

E o rei ficou deformado

o rei quis lhe dar um murro,

mas teria piorado.

 

Desde então o rei passou

A usar belos turbantes

As orelhas ocultou

E era sempre elegante.

 

Só o seu cabeleireiro

conhecia o segredo

E sendo bem fofoqueiro

Só não contava de medo.

 

O cabeleireiro então

Teve uma ideia genial

Fez um buraco no chão

No meio de um matagal.

 

Ali então o fofoqueiro

Falou quase num sussurro,

Como para o mundo inteiro:

“Midas tem orelhas de burro”!

 

Depois tapou o buraco

Com aquele seu segredo,

Cabeleireiro velhaco,

Já não sentia mais medo.

 

Porém naquele lugar

logo um bambuzal cresceu

e o vento pôs-se a anunciar:

o que o cabeleireiro escondeu.

 

O reino todo ouvia

O vento do bambuzal

E o que ele dizia

Virou o assunto geral.

 

Midas tem orelhas de burro!

O segredo foi desvendado.

Midas  só não dava esturro

Porque era educado.

 

O rei então fez cortar

o bambuzal delator,

que crescia e voltava a anunciar,

seu segredo, aquele horror.

 

E assim passou a vida

O rei da Frigias, na história.

Quem quiser conte em seguida,

Outro fato de memória.

 

 

Site consultado: https://www.recantodasletras.com.br/infantil/4973288

Visita em 22/10/2020

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

A BELA E A FERA

 

“A Bela e a Fera foi escrita na Idade Média, pela francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. (...), mas isso é o que os adultos querem dizer às crianças para discipliná-las. A Bela e a Fera é uma história sobre a síndrome de Estocolmo. A Fera vive sozinha no castelo por causa de uma maldição. Ele faz um refém no castelo, chamada Bela, e alicia sua vítima. Esse é o tema. A Fera é egoísta e trata mal a Bela. Então, fazer algo gentil raramente e sorrir brevemente para ela é suficiente para comover a moça ingênua. Sim. A Fera é solitária. Devo reconfortá-lo com o meu amor. Só eu posso mudá-lo. Era um delírio da Bela.”

No oitavo capítulo da série Tudo bem não ser normal a história da Bela e a Fera dialoga com uma situação do hospital psiquiátrico presente na trama. Uma das internas é uma mulher que apanhava do marido. O marido aparece para visitá-la e tenta a agredir e causa uma grande confusão. Ko Moo-yeong interfere na briga e acaba sendo agredida pelo homem. Gang-tae ao ver a situação, perde o controle, e bate no visitante. A situação fica complicada para Gang-tae, funcionário do hospital, que acaba recebendo uma punição por sua atitude.

O que é possível perceber nesse episódio é o alerta para a violência dos homens contra as mulheres. Mulheres que de certa forma acabaram por aprender a ser “fiel” ao companheiro e que, por isso, não conseguem sair da situação de abuso e violência gerada. As mulheres precisam perceber que a violência não é algo normal e natural e precisam sair de situações abusivas a que acabam se permitindo viver. O alerta é tanto  para a violência física quanto para a psicológica.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O CÃO ALEGRE

 

“Era uma vez um cão que sabia esconder muito bem suas emoções. Ele ficava amarrado sob uma árvore de sombra. Ele sempre abanava o rabo e era fofo. Por isso, era chamado de ‘O Cão Alegre’, tão alegre quanto a primavera. O cão sempre se divertia muito com as crianças do vilarejo. Porém, toda noite, ele gemia e choramingava quando não havia ninguém por perto. Ele chorava porque queria se soltar e correr livremente no campo florido. Mas ele não podia. Por isso chorava todas as noites. Todas as noites. Um dia, uma voz dentro dele perguntou ao Cão Alegre: ‘Por que você não corta a coleira e foge?’ E o Cão Alegre respondeu... ‘Estou amarrado há muito tempo, então não sei como me libertar.’

O Cão Alegre é a história compartilhada no sétimo capítulo da série Tudo bem não ser normal. Uma história simples que carrega uma grande lição. Quando se está preso por muito tempo é bem difícil se livrar das “amarras”. Sejam costumes, comportamentos, tradições ou o que for, romper é uma atitude corajosa que vem muitas vezes acompanhada pelo medo e pela dor.  O Cão Alegre vivia aparentemente feliz. Viver de aparência é o problema nessa situação. Às vezes é preciso mudança. Deixar as aparências de lado para ser verdadeiramente feliz e alegre.

Neste episódio Ko Moo- yeong é atormentada de noite por um pesadelo. Gang-tae vai até o quarto dela para ajudá-la porque escutou ela gritando. Ela muito assustada o manda correr e fugir dali. Ele permanece firme e declara que não a deixará. Naquele dia Gang-tae faltou ao trabalho para cuidar dela. Faltar ao trabalho foi uma atitude ousada para o personagem que sempre age de maneira correta e cumpre seus deveres. Com essa atitude ele se mostra como alguém que conseguiu “romper” ,ainda que bem pouco, as cordas que o prendem.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O SEGREDO DO BARBA AZUL

 

“Era uma vez um conde que tinha a barba azul e vivia sozinho em um enorme castelo. Ele era muito rico, mas todos o evitavam por medo de sua barba azul. Mas um dia, uma mulher pobre veio ao castelo e disse que queria ser sua noiva. Cheio de alegria, o Barba Azul trouxe todas as joias e tesouros de cada cômodo e deu de presente à sua esposa. Ele impôs só uma restrição. O quarto no porão. Ele a advertiu que nunca entrasse naquele cômodo. Mas, um dia, a esposa curiosa abriu a porta secreta sem contar ao marido. Cadáveres de mulheres estavam expostos nas paredes. Eram as esposas que haviam ignorado a advertência e aberto a porta. Esse tinha sido o fim delas. O Barba Azul arrastou sua esposa para o porão e a decapitou. Mais uma vez, o Barba Azul ficou sozinho.”

O segredo do Barba Azul é a história contada no sexto episódio da série Tudo bem não ser normal. Essa história gera questionamentos e reflexões nas personagens Ko Moo-yeong e Moon Sang-tae.

Ko Moo-yeong relembra um episódio da infância quando questiona sua mãe do porquê de Barba Azul ter matado as esposas dele. A mãe responde que é porque foram desobedientes e a aconselha a nunca ser desobediente.  A obediência é um valor a ser observado, entretanto é complicado exigi-la devido ao medo de uma punição. Em relação a figura das esposas representadas na história é ainda mais complicado. Deveriam ser obedientes, “submissas”, aos maridos sem nem questionar o porquê daquela atitude? Como conviver com o outro diante de um segredo que compete somente a ele? Essa obediência cega não faz bem a nenhuma das partes.

Moon Sang-tae pergunta ao irmão o motivo de Barba Azul viver isolado em um castelo. Recebe a explicação de por ser ele diferente, ter a barba azul, precisava viver isolado. Sang-tae questiona então se quem é diferente deve ser isolado. É uma reflexão a ser feita por nós. Por ser um personagem com necessidades especiais somos pegos de surpresa e sacudidos a refletir sobre essa questão. É bem claro em nossa sociedade a necessidade de inclusão do diferente. Percebe-se um esforço para que a inclusão aconteça, contudo não é tão simples. Facilmente o preconceito aparece em situações em que o surge o diferente.

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

RAPUNZEL E O CASTELO AMALDIÇOADO

 

“Há muito tempo, nas profundezas da floresta, uma garotinha morava em um castelo amaldiçoado. A mãe dela sempre dizia que ela era especial demais para conviver com as pessoas fora do castelo. A mãe disse à filha que ela tinha que viver dentro do castelo. Porém, a garotinha se sentia uma prisioneira. Ela rezava para a Lua todos os dias. ´Por favor, me mande um lindo príncipe que me salve deste lugar. Ele virá hoje? Ele virá amanhã?’ A garotinha esperava pelo príncipe todos os dias”.

 O quinto capítulo da série Tudo bem não ser normal com o conto Rapunzel e o castelo amaldiçoado coloca em evidência mais uma vez a figura do príncipe como salvador. Mais uma vez destaca também o papel de mãe, nesse caso como protetora que quer esconder a filha do mundo que existe fora do castelo.

Ko Moo- yeong levou o irmão mais velho de Moon Gang-tae ao castelo amaldiçoado onde ela morava quando criança e onde se hospedou nessa estadia por sua cidade natal. Moon Gang-tae ao ser chamado ao castelo para buscar o irmão revela que sabia ser Ko Moo-yeong a menina que o salvou quando sofreu um acidente na infância.

Ko Moo-yeong fica surpresa ao perceber que Moon Gang-tae também se lembrava dos acontecimentos da infância. Os dois viveram episódios juntos na infância e ganham a chance de se aproximarem novamente na fase adulta. Cria-se a expectativa de viverem um romance, entretanto não fica claro se isso irá ocorrer nos próximos episódios, essa expectativa, de certa forma,  prende o interesse aos eventos futuros da série.     

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

CRIANÇA ZUMBI

 

“Em uma pequena aldeia, nasceu um bebê. Ele tinha a pele pálida e olhos grandes. Ao criá-lo, sua mãe chegou naturalmente à conclusão de que ele não tinha sentimentos. Ele só tinha vontade de comer, como um zumbi. Sua mãe o trancou no porão para que os aldeões não o vissem. À noite, ela roubava animais para alimentá-lo. Foi assim que o criou em segredo. Ela roubava uma galinha. No dia seguinte, um porco. Vários anos se passaram assim. Um dia, uma epidemia eclodiu. Os animais restantes morreram, bem como várias pessoas. Os sobreviventes deixaram a aldeia. Mas a mãe não podia abandonar seu filho. Para aplacar seu choro de fome, ela cortou a própria perna e deu a ele. Depois, um braço. Ela deu a ele todos os membros. Quando só lhe restava o tronco, ela se aproximou do filho pela última vez para que ele terminasse de devorá-la. Com os dois braços, o menino segurou firme o corpo da mãe e falou pela primeira vez na vida. – ‘Mãe, você é tão quente’. O que o menino queria? Saciar sua fome? Ou sentir o calor da mãe?” 

É sobre filhos que trata o quarto episódio da série Tudo bem não ser normal. São apresentados alguns conflitos dos personagens com os pais. Destaque ao episódio do filho do político interno do hospital psiquiátrico. Moon Gang-tae confronta o político à respeito da necessidade dos filhos serem úteis aos pais. O político, então, agride o enfermeiro com um tapa no rosto. O filho internado no hospital psiquiátrico é considerado um inútil, entretanto são os filhos obrigados a serem úteis aos pais? A servi-los para cumprir seu propósito de filhos? Fica o questionamento para reflexão.

No conto da Criança Zumbi temos uma mãe que literalmente se entrega para ser devorada e saciar a fome do filho. Sabemos de tantas mães que se sacrificam metaforicamente para atender as necessidades de seus filhos. É interessante, porém, parar para pensar se estão interpretando corretamente as necessidades dos filhos ou se, no desespero em fazer seu melhor, nem percebem que a necessidade talvez não fosse a que ela julga. A criança da história talvez quisesse apenas sentir o calor da mãe e não saciar a fome.

Relações entre pais e filhos inevitavelmente geram conflitos e geram marcas. Assim como qualquer outra relação entre humanos nos moldam e faz com que nos tornemos o ser complexo e cheio de questões a resolver durante nossa existência.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A BRUXA ADORMECIDA

 

“Há muito tempo, em um castelo nas profundezas da floresta, morava uma princesa que dormiu por muitos anos. ‘Uma agulha em um fuso a matará’. Essa foi a maldição que a bruxa malvada jogou na princesa no dia em que ela nasceu. Com muito medo o rei queimou todos os fusos do reino para evitar a maldição, mas a princesa acabou furando o dedo no espinho de uma rosa dada a ela pela bruxa disfarçada e adormeceu. Os contos de fadas nos dizem que nunca podemos escapar do destino. Isso. O beijo do príncipe. Acho que ele pode quebrar a maldição. Mas não tinha muitas esperanças. Porque... vou matar esse príncipe.”

A bruxa adormecida, terceiro capítulo da série, faz uma ligação com esse conto de fadas e a história de Ko Moo-yeong. O lugar afastado onde vivia a personagem, quando era criança, era conhecido como castelo amaldiçoado. Quando volta a sua cidade natal é nesse castelo que ela se abriga.

Ko Moo-yeong é convidada pelo diretor do hospital psiquiátrico a dar aula de literatura para os internos. Nesse hospital está internado o pai dela ao qual ela não tem afeição. Ela aceita o convite para se aproximar mais de Moon Gang-tae, ele é enfermeiro do hospital.

Ko Moo-yeong provoca Moon Gang-tae em suas conversas chamando-o de hipócrita. Isso o incomoda e o faz pensar sobre suas atitudes e como tem vivido. Em certo momento ao confrontá-lo ela diz que todos somos hipócritas. Nessa concepção apontada pela personagem: vivemos mentiras para parecermos felizes a todos.

Ko Moo-yeong “sequestra” um jovem paciente, filho de um político, que acaba fazendo um escândalo em um comício do pai. Esse paciente sofria com episódios de mania. Estava agitado e feliz e ela, ao abordá-lo para a fuga, o convida a se divertir. Quando chegam ao comício, ela diz: ´vamos nos divertir aqui´.

Moon Gang-tae é quem a persegue para “resgatar” o paciente fugitivo. Depois de solucionado o caso ele se dirige a ela e diz: ´será que devo me divertir com você? ´. Ko Moo-yeong havia dito que ele deveria se divertir, e isso com as outras provocações feitas por ela, o levou a refletir se deveria mudar suas atitudes, se divertir.

Como nos outros episódios percebe-se certa “lição” acarretada com o conto de fadas ou história infantil trabalhada na trama. Dessa vez aparece a figura do príncipe para salvar a princesa amaldiçoada. Essa visão de príncipe, que aprendemos desde cedo, muitas vezes prejudica as mulheres com a construção de um imaginário ideal. Não somente as mulheres, também os homens, estão sujeitos a depositar no outro suas expectativas e esperança de “salvação”, esperança de “final feliz”. Nesse episódio percebemos um questionamento a respeito dessa missão do príncipe com a hipótese da bruxa má o matar. Se o príncipe não existir, ou vier a morrer, a princesa amaldiçoada viverá para sempre infeliz? É preciso refletir sobre essa dependência em relação ao príncipe.

 

 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A MULHER DOS SAPATOS VERMELHOS

 


“A menina usava seus sapatos vermelhos aonde quer que fosse, mesmo em uma igreja temente a Deus. Quando se calçam aqueles sapatos, os pés começam a dançar por conta própria. E você nunca consegue parar de dançar nem tirar os sapatos. Mesmo assim, a menina nunca desistiu dos sapatos vermelhos. No final, o carrasco teve que decepar os pés dela. Mas os pés cortados continuaram dançando com os sapatos. Algumas coisas não se separam, não importa o quanto você tente. É por isso que obsessões são nobres e belas.”

O segundo capítulo da série Tudo bem não ser normal é: A mulher dos sapatos vermelhos. Esse conto, narrado como no parágrafo anterior, encerra o episódio dois. Acontece o lançamento do livro Criança Zumbi da autora Ko Moon-yeong. O irmão de Moon Gang-tae é fã dela e fica feliz ao ser convidado para o evento.

Moon Sang-tae é o irmão mais velho, mas por ter necessidades especiais recebe todo cuidado, atenção e dedicação do irmão mais novo.

No lançamento ocorre uma situação complicada de preconceito e falta de entendimento entre uma família de fãs e o irmão mais velho do enfermeiro. A autora, Ko Moon-yeong, se envolve na confusão o que pode ter repercussões negativas na carreira dela.

Ko Moon-yeong se aproxima de Moon Gang-tae devido à situação de conflito no lançamento. Lembram-se de acontecimentos do passado e percebem que já se conheciam. Não deixam claro essa percepção.

Tudo isso se liga à história da mulher dos sapatos vermelhos. O encontro dos dois parece algo do destino já que “algumas coisas não se separam.”

 

 

 


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O MENINO QUE SE ALIMENTAVA DE PESADELOS

 

“Ele não tinha mais pesadelos.  Mas, por algum motivo ele não era feliz (...) Todas as minhas lembranças ruins sumiram, mas por que, por que não consigo ser feliz? (...) e disse uma coisa a ele: ‘Lembranças muito dolorosas. Lembranças de arrependimentos. Lembranças de machucar e ser machucado. Lembranças de ser abandonado. Somente aqueles com essas lembranças enterradas no coração, podem se tornar mais fortes, apaixonados e emocionalmente flexíveis. E só essas pessoas podem alcançar a felicidade´. (...) Não se esqueça de nada. Lembre-se de tudo e supere. Se não superar, sempre será uma criança cuja alma nunca floresce.”

O primeiro capítulo da série Tudo bem não ser normal se desenrola com a história do menino que se alimentava de pesadelos como “pano de fundo”. Os acontecimentos narrados se comunicam com os conflitos dessa história infantil. A busca por ser feliz e como. Os tormentos que as lembranças do passado nos trazem.

“Por que não consigo ser feliz?” Essa forte indagação atormenta os seres humanos em vários momentos da busca do sentido da vida na trajetória que percorremos. Trajetória que se revela como consequência das escolhas que fazemos. Busca-se uma fórmula, um “feitiço”, uma maneira de alcançar a felicidade.

E as memórias ruins do passado? Esquecer? A mensagem passada é: não se esqueça de nada. Apagar as memórias não nos livrará do sofrimento. Enfrentar e superar parece ser o caminho mais coerente.

A busca pela felicidade nos dá força para sonhar e nos mover. Perceber os pequenos momentos felizes na busca por algo maior também é um desafio. Enfrentar, superar, mover-se em direção ao que se espera alcançar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

TUDO BEM NÃO SER NORMAL

 

Tudo bem não ser normal é uma série coreana que chama a atenção de cara pelo título. Valeu a pena arriscar pelo título.  A cada episódio o envolvimento com a trama vai crescendo e as questões tratadas vão realmente suscitando inquietações de forma simples mas que nos levam a profundas reflexões sobre questões psicológicas.

Uma escritora de livros infantis um pouco incomuns, com temas “assustadores”, oferece os ingredientes por meio de cada episódio com a história dos livros dela ou de algum conto “universal” conhecido por muitos de nós. Cada história contada nos leva a refletir sobre alguma questão que nos incomoda ou incomoda alguém em nossa volta.

Essa personagem escritora vive um romance com um enfermeiro de uma instituição psiquiátrica. Essa instituição faz parte de todos os episódios sendo a ligação com a questão do “ser normal”. 

Refletir sobre o ser normal, com os vários questionamentos que a série acarreta, torna-se algo espontâneo e transformador. Questões simples, postas de forma singela, despertam em nós reflexões profundas.

domingo, 10 de maio de 2020

Nosso tempo

   Se não estou em constante atividade sinto-me errante. Preciso ocupar o tempo para que sinta que sou produtivo, útil,vivo! Só estou vivo se constantemente me movo em algo que traga resultados, de preferência grandes e admiráveis resultados. Por que não posso estar desocupado e ser um pouco inútil? Por que não posso me desprender de cumprir tantas expectativas que depositam sobre mim?