sexta-feira, 18 de setembro de 2020

CRIANÇA ZUMBI

 

“Em uma pequena aldeia, nasceu um bebê. Ele tinha a pele pálida e olhos grandes. Ao criá-lo, sua mãe chegou naturalmente à conclusão de que ele não tinha sentimentos. Ele só tinha vontade de comer, como um zumbi. Sua mãe o trancou no porão para que os aldeões não o vissem. À noite, ela roubava animais para alimentá-lo. Foi assim que o criou em segredo. Ela roubava uma galinha. No dia seguinte, um porco. Vários anos se passaram assim. Um dia, uma epidemia eclodiu. Os animais restantes morreram, bem como várias pessoas. Os sobreviventes deixaram a aldeia. Mas a mãe não podia abandonar seu filho. Para aplacar seu choro de fome, ela cortou a própria perna e deu a ele. Depois, um braço. Ela deu a ele todos os membros. Quando só lhe restava o tronco, ela se aproximou do filho pela última vez para que ele terminasse de devorá-la. Com os dois braços, o menino segurou firme o corpo da mãe e falou pela primeira vez na vida. – ‘Mãe, você é tão quente’. O que o menino queria? Saciar sua fome? Ou sentir o calor da mãe?” 

É sobre filhos que trata o quarto episódio da série Tudo bem não ser normal. São apresentados alguns conflitos dos personagens com os pais. Destaque ao episódio do filho do político interno do hospital psiquiátrico. Moon Gang-tae confronta o político à respeito da necessidade dos filhos serem úteis aos pais. O político, então, agride o enfermeiro com um tapa no rosto. O filho internado no hospital psiquiátrico é considerado um inútil, entretanto são os filhos obrigados a serem úteis aos pais? A servi-los para cumprir seu propósito de filhos? Fica o questionamento para reflexão.

No conto da Criança Zumbi temos uma mãe que literalmente se entrega para ser devorada e saciar a fome do filho. Sabemos de tantas mães que se sacrificam metaforicamente para atender as necessidades de seus filhos. É interessante, porém, parar para pensar se estão interpretando corretamente as necessidades dos filhos ou se, no desespero em fazer seu melhor, nem percebem que a necessidade talvez não fosse a que ela julga. A criança da história talvez quisesse apenas sentir o calor da mãe e não saciar a fome.

Relações entre pais e filhos inevitavelmente geram conflitos e geram marcas. Assim como qualquer outra relação entre humanos nos moldam e faz com que nos tornemos o ser complexo e cheio de questões a resolver durante nossa existência.

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